A abordagem da relação entre fé e razão apresentada por Libânio e Murad permite compreender essas duas dimensões como realidades distintas, porém complementares, que se dialogam e se integram no horizonte da reflexão teológica. Essa perspectiva se aproxima da metafísica de São Boaventura, profundamente marcada pela centralidade de Deus, pela teoria da iluminação e pelo exemplarismo de matriz platônico-agostiniana. Em seu pensamento, filosofia e teologia estão intimamente relacionadas, embora o conhecimento racional permaneça subordinado, Boaventura afirma que a razão necessita ser orientada pela fé e encontra sua plenitude na sabedoria revelada.

São Boaventura, filósofo e teólogo medieval, busca, por meio da reflexão orientada pela sabedoria cristã, formular um caminho adequado para alcançar a contemplação de Deus. Influenciado pela espiritualidade franciscana, compreende Deus como presença interior e como realidade que pode ser reconhecida na criação. A profundidade de sua reflexão filosófica conduz o ser humano dos vestígios de Deus presentes no mundo e de sua imagem impressa na alma até o próprio Deus. O ser humano quando alcança o ponto culminante desse itinerário contemplativo, o pensamento retorna às criaturas, reconhecendo-as como expressões, vestígios e imagens do Criador.

Ao buscar Deus, o ser humano deve iniciar seu percurso pelo mundo sensível, compreendido como vestígio do Criador, por constituir a realidade mais acessível ao conhecimento humano. Segundo Boaventura, o ponto de partida é a natureza criada, na qual podem ser contemplados o poder, a sabedoria e a bondade de Deus:

El movimiento de especulación parte, pues, del espejo de la natu raleza, donde se contempla el poder de Dios, su sabiduría y su bondad. Este movimiento se hace de tres modos: considerando las cosas en sí mis mas por una reflexión racional, viéndolas con los ojos de la fe y descubriendo, por la especulación, a Dios presente en el seno de las cosas.[1]

Nessa compreensão, o Catecismo da Igreja Católica[2] contribui fundamentando essa ideia de que o ser humano tem acesso a Deus mediante o mundo material e pessoa humana. O mundo material a partir do movimento e do devir, da contingência, da ordem e da beleza do mundo. O ser humano com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu sentido do bem moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com a sua ânsia de infinito e de felicidade. A Gaudium et spes[3] afirma que, pela interioridade, o ser humano transcende o universo material. Quando entra no íntimo de si mesmo, encontra Deus, que perscruta os corações e o espera nessa profundidade interior. O Concílio chama a consciência de “centro mais secreto e santuário do homem”, no qual ele se encontra a sós com Deus.

Assim, a razão humana, segundo o Catecismo da Igreja Católica,[4] alcança a existência de Deus, mas não pode, por suas próprias forças, penetrar plenamente sua intimidade. Para isso, Deus quis revelar-se e conceder ao ser humano a graça da fé. É pela Revelação que se conhece o mistério mais íntimo de Deus: Ele é um só Deus em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. As três Pessoas não dividem a divindade, pois possuem uma única essência ou natureza divina, embora sejam realmente distintas pelas relações que mantêm entre si.

Os documentos das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano-CELAM, afirmam que o movimento contemplativo pode ser compreendido em três etapas: ao contemplar Deus na criação, reconhecê-lo presente no interior da pessoa humana e elevar-se ao mistério de sua vida trinitária.

O Documento de Aparecida fundamenta a contemplação de Deus “fora de nós mesmos” ao ensinar que o universo criado é sinal da bondade e da beleza divina e manifestação do amor providente de Deus. A criação, portanto, não se confunde com Deus, mas remete ao Criador e torna perceptíveis sua sabedoria, sua beleza e sua bondade: “o Senhor criou o universo como espaço para a vida” e o deixou como “sinal de sua bondade e de sua beleza” (DAp 125). [5]

Partindo da compreensão de Aparecida,[6] contemplar Deus “em nós mesmos” é buscar a dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. O ser humano recebeu inteligência, liberdade e capacidade de amar, mantendo com Deus uma relação permanente que constitui o fundamento de sua dignidade (DAp 104). Além disso, Deus derrama seu amor em nós pelo Espírito Santo e faz do ser humano sua morada: “Viremos a ele e viveremos nele” (DAp 106 e 109). Assim, o interior humano pode ser contemplado como imagem, presença e habitação de Deus, embora nunca se identifique plenamente com Ele. Em Puebla, essa contemplação do mistério divino não se faz no isolamento, mas na participação na vida de Deus e com abertura à vida de comunidade (DP 563).

No Magistério do Papa Francisco, na Laudato Si (2015), se encontra a reafirmação desse pensamento a partir da compreensão de que o caminho contemplativo não consiste apenas em passar das realidades exteriores para a interioridade, mas também em aprender a encontrar Deus em todas as coisas. Há um mistério divino a ser contemplado na criação, nas experiências humanas e até “no rosto do pobre”, quando ressalta a pessoa de São Francisco de São Boaventura como aqueles que, amparados no Salmo 13,5, “propõe-nos reconhecer a natureza como um livro esplêndido onde Deus nos fala e transmite algo da sua beleza e bondade: “Na grandeza e na beleza das criaturas, contempla-se, por analogia, o seu Criador.”[7]

Assim, pode-se verificar que há uma boa relação entre fé e razão e que entre ambas há um elemento essencial para compreender o itinerário da mente para Deus proposto por São Boaventura. Embora distintas, são duas dimensões que não apresentam realidades opostas, mas podem ser vistas como formas complementares de acesso à verdade. Por um lado, o pensamento racional permite reconhecer os vestígios do Criador no mundo sensível e sua imagem no interior do ser humano. Por outro lado, a fé, quando iluminada pela Revelação, conduz o pensamento para além dos limites naturais da inteligência e possibilita à contemplação do mistério divino em sua vida trinitária.

O itinerário da mente para Deus de São Boaventura, se desenvolve, como um movimento progressivo que inicia nas criaturas, transita pela interioridade da alma e se eleva à contemplação de Deus. Na criação contempla-se o poder, a sabedoria, a beleza e a bondade divinas, enquanto que, no ser humano, criado à imagem de Deus é chamado a acolher sua presença, por privilégio; é o lugar de encontro com o Criador. A plenitude desse caminho não depende apenas do esforço racional, mas exige a iluminação da fé, a ação da graça divina e transcendência de quem o contempla.

Os documentos do Magistério da Igreja Católica citados, mostram também que, a verdadeira contemplação não afasta o ser humano do mundo, mas o conduz a reconhecer a presença divina nas criaturas, na comunidade, nas experiências humanas e, especialmente, no rosto dos pobres e vulneráveis.

Conclui-se, assim, que o pensamento de São Boaventura permanece atual ao propor uma integração entre razão, fé, contemplação e compromisso com a realidade. A mente que se eleva até Deus retorna ao mundo com um olhar renovado, capaz de reconhecer toda a criação como vestígio do Criador e cada pessoa como portadora de uma dignidade inviolável. Desse modo, o itinerário para Deus não se reduz a uma experiência meramente intelectual, mas constitui um caminho espiritual de conversão, comunhão e amor, no qual a razão é iluminada pela fé e encontra sua plenitude na sabedoria revelada.

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REFERÊNCIAS

BOUGEROL, Jacques Guy. Intoducion a San Buenaventura. Madrid: Biblioteca de autores cristianos. 1984.

CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM). Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília, DF: Edições CNBB; São Paulo: Paulinas; São Paulo: Paulus, 2007. Disponível em: https://www.dhnet.org.br/direitos/cjp/a_pdf/cnbb_2007_documento_de_aparecida.pdf.  Nº 125. Acesso em: 12 jul. 2026.

CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM). Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília, DF: Edições CNBB; São Paulo: Paulinas; Paulus, 2007. Disponível em: https://www.dhnet.org.br/direitos/cjp/a_pdf/cnbb_2007_documento_de_aparecida.pdf. Nº 104, 106 e 109. Acesso em: 12 jul. 2026.

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo atual. Cidade do Vaticano, 7 dez. 1965. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html. Acesso em: 10 jul. 2026.

Documentos do Papa Francisco. São Paulo: Paulus, 2025, p. 667-669, nº 10,11,12.

IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica: o homem é “capaz” de Deus. Primeira parte, primeira seção, capítulo primeiro, §§ 26-49. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, [s. d.]. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c1_26-49_po.html. Acesso em: 10 jul. 2026.

IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica: creio em Deus Pai. Primeira parte, segunda seção, capítulo primeiro, §§ 198-421. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1992. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c1_198-421_po.html. Acesso em: 10 jul. 2026.


[1] BOUGEROL, Jacques Guy. Intoducion a San Buenaventura. Madrid: Biblioteca de autores cristianos. 1984, p. 252. O ponto de partida é a natureza criada, na qual se contemplam o poder de Deus, sua sabedoria e sua bondade. Esse movimento realiza-se de três modos: considerando as coisas em si mesmas, por meio de uma reflexão racional; contemplando-as com os olhos da fé; e descobrindo, pela especulação, Deus presente no íntimo das coisas.

[2] IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica: o homem é “capaz” de Deus. Primeira parte, primeira seção, capítulo primeiro, §§ 26-49. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, [s. d.]. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c1_26-49_po.html. Acesso em: 10 jul. 2026.

[3] CONCÍLIO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo atual. Cidade do Vaticano, 7 dez. 1965. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html. Acesso em: 10 jul. 2026.

[4] IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica: creio em Deus Pai. Primeira parte, segunda seção, capítulo primeiro, §§ 198-421. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1992. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c1_198-421_po.html. Acesso em: 10 jul. 2026.

[5] CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM). Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília, DF: Edições CNBB; São Paulo: Paulinas; São Paulo: Paulus, 2007. Disponível em: https://www.dhnet.org.br/direitos/cjp/a_pdf/cnbb_2007_documento_de_aparecida.pdf.  Nº 125. Acesso em: 12 jul. 2026.

[6] CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM). Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília, DF: Edições CNBB; São Paulo: Paulinas; Paulus, 2007. Disponível em: https://www.dhnet.org.br/direitos/cjp/a_pdf/cnbb_2007_documento_de_aparecida.pdf. Nº 104, 106 e 109. Acesso em: 12 jul. 2026.

[7] Documentos do Papa Francisco. São PAulo: Paulus, 2025, p. 667-669, nº 10,11,12.