
Padre William Alves dos Santos Vasconcelos
Sábado, 31 de outubro de 2026 as 00:14
DE ABEL A JESUS: A INOCÊNCIA DA VÍTIMA E A RUPTURA DO CICLO DA VIOLÊNCIA
De Abel a Jesus: a inocência da vítima e a ruptura do ciclo da violência [1] Pe. William Vasconcelos “ A violência começa quando deixamos de reconhecer o outro como irmão; a paz começa quando, mesmo diante da injustiça, recusamos transformar o outro em inimigo” A violência que levou Caim a matar Abel reaparece, sob outras formas, na crucificação de Jesus. Em ambos os acontecimentos, a vida do outro é negada no interior das próprias relações humanas. Para Freud, em O Mal-estar na Civilização [2] , a cultura recalca a agressividade sem conseguir suprimi-la, deixando a convivência sempre exposta à violência latente. Diante disso, a tradição cristã introduz na cruz um paradoxo: a resposta ao mecanismo agressor não se dá pela aniquilação, mas pelo perdão incondicional ( Pai, perdoa-lhes... , Lc 23,34). Longe de legitimar o sofrimento, essa práxis subverte a lógica retributiva ao suspender a reciprocidade da vingança.". Na cruz, Jesus não justifica a injustiça, não considera o sofrimento um bem e não legítima a atitude dos agressores. Ele demonstra que perdoar não significa aceitar a violência, mas recusar que ela determine nossas atitudes e nossas relações. À luz de René Girard, no livro “O bode expiatório” [3] , Jesus ensina que a verdadeira paz não nasce da eliminação de um culpado ou da escolha de uma vítima, mas da superação da lógica que transforma o outro em inimigo. A grande lição de Jesus é que não precisamos destruir o outro para preservar a nós mesmos. Nesse horizonte, a superação da lógica sacrificial exige a desconstrução da própria retaliação institucionalizada. É exatamente essa ruptura que o mandamento do amor aos inimigos (Mt 5,44) opera: ao recusar a reciprocidade da violência, a práxis de Jesus inaugura uma ordem onde o laço social deixa de fundar-se sobre o cadáver do bode expiatório, isto é, do irmão. Em Caim, o ser humano rompe a fraternidade ao eliminar o irmão. Em Jesus, a vítima da violência responde não com a vingança, mas com o perdão. Se Caim representa a fraternidade destruída pela violência, Cristo crucificado revela a possibilidade de reconstruir a fraternidade pelo amor e pelo perdão. Isso não significa justificar a violência sofrida por Jesus, mas compreender que sua resposta rompe a lógica da retribuição violenta. [1] BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002. [2] FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização . Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. [3] GIRAD, René. O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2021.


